Shanghai regista o maior surto de crescimento da China, com uma população de 15 milhões de habitantes e uma densidade populacional que já ultrapassa, nalguns bairros, a de Tóquio ou Nova Iorque. Este ano, já ganhou mais 400 mil novos habitantes e são esperados outros 200 mil até ao final do ano. Também não pára de atrair investimentos: Entre Janeiro e Agosto, três mil empresas estrangeiras abriram escritórios na cidade. Trezentas das 500 maiores companhias do mundo listadas pela revista "Forbes" estão presentes em Shanghai, 42 das quais com sedes regionais.
Texto e fotos: Alexandre Coutinho(Texto originalmente publicado na revista "Executive Digest")
O cenário visível na novíssima zona de Pudong, na margem direita do rio Huangpu, espelha bem o desenvolvimento reinante na cidade. A Oriental Pearl Tower partilha o domínio dos céus da "Manhattan" de Shanghai com a Jin Mao Tower, um arranha-céus construído em forma de pagode futurista com 420 metros de altura. É o terceiro edifício mais alto do mundo, a seguir às torres Petronas de Kuala Lumpur (Malásia) e à torre Sears de Chicago (EUA). A subida até ao último dos seus 88 andares é estonteante, num elevador que viaja à velocidade de 9 metros por segundo. Um ponto ideal para desfrutar de uma magnífica panorâmica sobre a cidade. Mesmo ao lado, está reservado o espaço para a construção daquele que deverá ser o edifício mais alto do mundo em 2007: O World Financial Center, com 94 andares e 460 metros de altura!
Há pouco mais de dez anos, quando Deng Xiaoping visitou Shanghai e deu o pontapé de saída no desenvolvimento de Pudong, não existiam ali mais do que alguns armazéns e depósitos de armadores e pescadores construídos em terrenos pantanosos. Estas terras tiveram de ser drenadas antes do arranque das novas edificações, mas um conjunto de estudos recentemente divulgados indica que a cidade está a afundar-se à razão de um centímetro e meio por ano, o que já levou a autoridade de planeamento urbano de Shanghai a suspender alguns dos 800 arranha-céus anteriormente autorizados.
Na outra margem, a atmosfera do Bund faz lembrar um pouco o Malecón de Havana (assim estivesse devidamente restaurado). Os seus 52 edifícios neo-clássicos construídos entre os anos 20 e 30, testemunharam várias guerras, mas também o apogeu da cidade como centro comercial mais importante do Extremo-Oriente. Destaque para o edifício da Alfândega, cuja torre de relógio recria o som do Big Ben de Londres; o famosíssimo Peace Hotel (antigo Cathay Hotel), obra-prima do Art-Déco; e a antiga sede do Hong Kong and Shanghai Bank, com a sua cúpula, onde ainda brilha a estrela vermelha colocada pelos comunistas em 1949.
Ao cair da noite, depois de um lauto jantar no terraço do restaurante "M on the Bund", nada melhor que um passeio calmo ao longo da marginal do rio Huangpu, tendo por cenário os edifícios históricos iluminados, de um lado e, do outro, os arranha-céus e os néons das multinacionais japonesas. No terraço-esplanada entre a avenida e o rio, turistas chineses e estrangeiros agrupam-se para tirar fotografias, enquanto os vendedores ambulantes, angariadores e distribuidores de panfletos disputam a atenção dos transeuntes. Nos céus, um dirigível faz publicidade ao estilo do filme Blade Runner, seguindo o trajecto serpenteante do rio.
Motor económico da China
«Quando vim pela primeira vez, era uma cidade bastante escura e fechada. Há dois anos, não se viam tantos ocidentais nas ruas. Agora está melhor. Aprendi a gostar de Shanghai», confessa José Hernâni da Silva, sócio-gerente do restaurante Ashanti Dôme, instalado numa antiga igreja ortodoxa russa que escapou à demolição durante a Revolução Cultural por ostentar um retrato de Mao Tsé-Tung no frontispício.
Rodeado por uma cintura industrial e por uma floresta de arranha-céus, o centro de Shanghai é compacto e ruidoso, muito diferente das avenidas largas de Pequim. As ruas têm muito trânsito e há cada vez mais carros, mas as bicicletas continuam a dominar a hora de ponta, desafiadas, sobretudo, pelas incessantes buzinas das motorizadas. Alguns ciclistas, motociclistas e peões não respeitam os sinais de trânsito; os carros também não respeitam os peões quando mudam de direcção; e os taxistas chegam a conduzir em contra-mão para ultrapassar um qualquer obstáculo. Metade dos automóveis em circulação são Volkswagen (nomeadamente, os táxis) ou Buick, fruto das primeiras "joint-ventures" firmadas com estes construtores; a outra metade, são de marcas japonesas ou sul-coreanas (furgões e camionetas).
Já não há "rickshaws" em Shanghai e, até, os velhotes deixaram de usar o chamado fato à "Mao Tsé Tung". Na rua, as pessoas reflectem as melhorias no seu bem-estar. Vestem roupas ocidentais modernas e as lojas estão cheias, não de visitantes, mas de clientes. Os centros comerciais, esses sim, estão vocacionados para os passeios familiares. Os preços praticados são mais caros e chegam a fechar mais cedo do que as lojas de rua da Nanjing Dong Lu, geralmente, abertas até às 22h, em qualquer dia da semana. Multiplicam-se os vendedores ambulantes de comida, fruta e adereços. Os McDonald's, Starbucks, KFC e Pizza Hut pululam pela cidade, muito frequentados pelos jovens casais, nem que seja somente para beber um café ou comer um gelado e, também, como sala de estudo. Muitos já têm telemóvel e automóvel, símbolos da nova classe média emergente, que segue os modelos e estereótipos importados da Coreia do Sul.
Em 2002, o rendimento per-capita da população urbana chinesa cresceu 13,4%, face a 2001, elevando-se em cidades como Shanghai aos 7416 yuan (938 euros). Segundo dados oficiais, a expectativa de crescimento do PIB chinês para o ano em curso é de 8,3% e de 8,5%, para 2004. O motor económico da China já arrancou!
Cultura na redoma dos museus
A "Cidade Velha" de Shanghai corresponde, hoje, a uma verdadeira "Chinatown" comercial (sem recear a redundância), por entre pavilhões reconstruídos, templos taoístas e lojas velhas e modernas com tudo o que se possa imaginar (e a todos os preços). Milagrosamente preservados da voragem comercial que os rodeia, os jardins Yu Yuan, criados na dinastia Ming (Século XVI), oferecem ao visitante um verdadeiro oásis de paz e tranquilidade, que se estende à centenária casa de chá no pavilhão situado a meio do lago.
Por contraste, os encantos e a beleza dos edifícios rodeados de jardins da Antiga Concessão Francesa parecem ter desaparecido há muito, submergidos pelo desenvolvimento urbano. No meio deste antigo bairro residencial, as torres de apartamentos crescem como cogumelos, tal como as lojas nas ruas mais comerciais, sobretudo de pronto-a-vestir. A antiga Avenue Joffre (Huahai Zhong Lu) transformou-se na principal artéria da moda em Shanghai. Mas, não muito longe das lojas de marca Hugo Boss e Ermenegildo Zegna, fica o famoso mercado de Huating, uma imensa "feira de Carcavelos" onde se vende todo o tipo de vestuário, malas e calçado. Nas ruas adjacentes, os turistas são bombardeados pelas ofertas dos vendedores de imitações de relógios e malas: "Lolex, Lolex...", gritam em coro muitos dos assediantes, na maioria, camponeses acabados de desembarcar na grande cidade e aliciados para tentar a sua sorte no passeio. Outros trabalham na construção civil e as mulheres como empregadas domésticas. Querem todos ganhar mais dinheiro e concretizar o sonho de comprar uma casa.
Com o surto urbanístico vigente em Shanghai, não restará à Antiga Concessão Francesa outra solução que sobreviver em pequenos "ghetos" para turistas como o bairro de Xintiandi, especialmente preservado da ruína por um grupo imobiliário de Hong Kong que lhe restaurou as casas e criou ruas pedonais, lojas, restaurantes, cafés e esplanadas. Os visitantes asiáticos e ocidentais passeiam-se pelas ruas e admiram os edifícios daquilo que resta da velha Shanghai, como se de um museu vivo se tratasse.
A propósito, consagre uma manhã inteira ao Museu de Shanghai, onde pode admirar as melhores galerias de bronzes, esculturas, porcelanas, gravuras, selos, mobiliário, vestuário e moedas antigas, a par de exposições temporárias de colecções de arte internacionais. À saída, se preferir gastar o seu dinheiro em livros e postais na excelente loja do museu, troque o vistoso restaurante pela cantina dos guardas e restantes funcionários, situada no rés-do-chão do edifício adjacente. Um "self-service" onde poderá provar diversos pratos chineses e fazer uma refeição completa por dois euros.
Encontrará mais livros na Foreign Languages Bookstore e na Shanghai Bookstore - A Cidade dos Livros, ambas situadas na Fuzhou Lu. A segunda ocupa um edifício novo de sete andares totalmente consagrado aos livros, CD, DVD e software para computadores. A área de exposição corresponde a qualquer coisa como sete "Fnacs" do Chiado e, à imagem desta, faculta aos clientes a possibilidade de folhear e ler os livros "in loco". A julgar pelas centenas de chineses que a frequentam diariamente, cumpre um papel misto de livraria e biblioteca. Na fachada, estão gravadas na pedra em várias línguas, frases alusivas à leitura e aos livros. Em português, pode ler-se: "Os livros são como uma escada para o progresso da humanidade".
Situado a pouco mais de 30 quilómetros da cidade, o aeroporto de Pudong é grande, moderno e funcional, tendo registado um movimento de 11 milhões de passageiros em 2002 (um crescimento de 20%, face ao ano anterior). Por isso, as autoridades chinesas acabam de anunciar a construção de um segundo terminal, que deverá estar operacional até ao final de 2007, já que a próxima grande aposta de Shanghai é a organização da EXPO 2010. Até lá, deverá entrar em funcionamento regular o famoso comboio de levitação magnética Transrapid Maglev, o último grito da tecnologia alemã, que liga o aeroporto ao centro financeiro de Pudong à velocidade de 430 km/h.
Visto em: Janela na Web.
Visto em: Janela na Web.



















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